Oi, oi, oi.
Sou uma pessoa difícil. Sou chata, rabugenta, resmungona, impaciente. Sofro de "sinceridade crônica", o que me causa muitos transtornos familiares. Sou daquele tipo que não edita o pensamento. Mas isso nunca me impediu de ser a melhor amiga dos meus amigos.
Tá certo que não são muitos, mas são sinceros como eu. E leais também. Não sou de me abrir de primeira. Preciso conhecer a pessoa, seus hábitos, educação. Sou intolerante com gente que não respeita o próximo, que não pensa no coletivo. Uma vez me disseram que sou uma falsa canceriana. Eu não diria falsa, mas exótica.
Ah! Eu guardo rancor. Sei que é uma coisa feia, mas eu guardo. Não me vingo, nem uso o assunto pra posteridade. Mas não esqueço e dificilmente dou uma segunda chance.
Tô enrolando pra dizer que comigo pau é pau, pedra é pedra. Que é tudo preto no branco. Não gosto de talvez, nem de empate. Como falava seu Sandoval Quaresma: "se sei digo que sei, se não sei digo que não sei e pronto".
Toda essa introdução é pra você entender que sou muito chata, mas não sou uma pessoa ruim, do mal. E quando digo que o mundo dá voltas é por causa disso. Minhas atitudes são muitas vezes autoritárias, mas nunca pra prejudicar ninguém.
Eu trabalhava numa grande instituição de ensino superior. Estava lá a três anos. Quando voltei das férias, fui demitida. E eu estava grávida. Ninguém levou isso em consideração. Inclusive a menina do DP, que não atendia as minhas ligações e se recusou por duas vezes a receber meus exames médicos comprovando a gravidez. Processei a universidade, ganhei lógico e a juíza ainda deu um sermão pros representantes da empresa.
Na semana passada essa mesma menina foi demitida. Grávida. E entrou em contato comigo querendo o telefone do meu advogado. Fiquei numa sinuca de bico. Consultei amigos, marido e minha consciência. Uns diziam pra aproveitar a oportunidade e me vingar, outros pra esquecer e dar o número. Me fiz muitas perguntas. Devo? Não devo? Ela merece? Minha cabeça ficou a mil.
A dúvida rondou a minha mente. Mas antes de tomar uma atitude, marido foi lá e deu o telefone do escritório do meu advogado. Brigamos. Chorei. Disse que eu é quem devia decidir. Mais calma eu vejo e percebo que quem decidiu dói ela mesmo, a menina.
Lá atrás, ela não teve a dignidade de me enxergar como ser humano, mulher e grávida. Hoje, o mundo tá mostrando a ela que somos iguais. Eu fiz o meu papel, indiretamente pelas mãos e consciência do meu marido. Deus cuida do resto.